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(Extraído do livro em preparação, sobre os Bombeiros de Anadia, da autoria de

 Dr. Carlos Alegre, Procurador Geral Adjunto da República)

A ideia da criação de uma Corporação de Bombeiros, no concelho de Anadia, germinou na cabeça de algumas pessoas, no início do século passado (XX), quando, um pouco por todo o País se foram criando corporações congéneres.

 

Em finais de 1921, já se havia constituído uma Comissão Organizadora de uma Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Anadia, a qual apresentou, na Câmara Municipal, uma carta, datada de 14 de Outubro de 1921, solicitando um subsídio para fazer face às primeiras despesas.

 

O pedido mereceu toda a compreensão da Municipalidade que, em reunião realizada no dia 22 do mesmo mês, considerou a iniciativa “tão útil como humanitária, digna dos maiores louvores” e logo deliberou incluir no orçamento para 1922, um subsídio, “ainda que pequeno, para auxílio das despesas a fazer com a efectivação do vosso nobre empreendimento”. O ofício da Câmara Municipal, onde se transmitia esta resolução à Comissão Organizadora, prosseguiu, emocionado: “Oxalá não fraqueje a boa vontade por vós manifestada. Muito desejava esta Comissão Administrativa [da Câmara Municipal] prestar-vos grande auxílio material – como o presta moralmente – porém, tal é, por enquanto, inteiramente impossível, atentas as enormes dificuldades financeiras com que a Câmara está lutando”.

 

Não se sabe se o subsídio foi, efectivamente, dado, nem qual o destino que teve, se foi entregue. É que, não mais se ouviu falar no assunto, publicamente até que, em 1 de Maio de 1926, o jornal “Defesa de Anadia” publicava uma “nota” com o título “Um alvitre”, como se de uma ideia inteiramente nova se tratasse, onde, em resumo sugeria a constituição de uma corporação de bombeiros.

 

O alvitre não terá caído em saco roto, tanto mais que a ideia tinha antecedentes, como se disse; mas as coisas andavam devagar. Anadia, pelos vistos, “não era muito fértil em incêndios”, como escrevia o “Defesa de Anadia”, mas, como “numa hora arde a casa”, aconteceu que, em Setembro do ano seguinte (1927), ocorreu em Arcos, um grande incêndio que devorou as casas de arrumação e abegoarias, pertencentes a João Monteiro Cancela, que era contador do Juízo de Direito da Comarca de Anadia. As dificuldades no combate a esse incêndio não estiveram tanto na falta de pessoas que lhe acudissem, mas, sobretudo, na ausência dos meios adequados para o fazer.

 

A ocorrência veio pôr novamente em foco, “avivando-o com as cores ensanguentadas e medonhas da tragédia”, no dizer grandiloquente do jornal “A Bairrada”, de 10 de Setembro de 1927. A verdade é que, a partir daí, as populações, através dos jornais, reclamavam que se tratava do “importantíssimo problema do material para incêndios que urge solucionar rapidamente”.

 

O caso do incêndio de Arcos foi um grande aviso que fez ressurgir a ideia da criação de uma corporação de bombeiros, em Anadia, para o que se constituiu uma outra comissão organizadora, formada por um conjunto de jovens: Dr. Armando Cancela de Abreu, Dr. Fernando de Melo Costa e Almeida, Óscar Manuel Guedes Alvim, Júlio Augusto dos Santos Maia, Serafim Tavares Alves, Dr. Luís de Melo Osório, Padre Abel Condesso, Dr. Alberto Paulo Menano e Manuel Ferreira Alves, este último do lugar de Sá, Sangalhos.

 

O jornal “Defesa de Anadia” que noticiava a constituição desta Comissão logo abriu uma subscrição para “compra de material de incêndios” e, em 17 de Setembro já dava conta de ter angariado 14.550$00. Espalharam-se listas de angariação de fundos por todas as freguesias do concelho e mais cerca de um ano decorreu sem que nada de especial acontecesse.

 

O jornal “A Ideia Livre”, em 5 de Janeiro de 1929, queixava-se do demasiado tempo que já havia decorrido e «lembrava» à Comissão Organizadora a necessidade de avançar com a ideia. A dita Comissão, mais lentamente do que desejava a impaciência popular, em meados de 1933, intensificara os seus trabalhos de redacção dos estatutos da futura Associação que, em finais de Setembro, estavam prontos a ser submetidos “a aprovação superior”. De facto, foram aprovados pelo Governador Civil de Aveiro, em 20 de Dezembro de 1933. Subscreviam-nos sete dos nove componentes da Comissão Organizadora e mais o Dr. Manuel Joaquim Pires, Armando Ferreira Magalhães e Artur Ferreira da Silva.

 

A Direcção da novel Associação era constituída por quatro elementos eleitos trienalmente e mais três vogais natos: o Comandante do Corpo Activo, um representante da Câmara Municipal e outro da Misericórdia de Anadia.

 

Em Março de 1934, já havia sido adquirido um chassis «Fordson 1934», para nele ser montado o primeiro pronto-socorro da Corporação e já se tinham feito as primeiras experiências com uma moto-bomba, entretanto adquirida.

 

A sede da Corporação ficou instalada numas garagens novas, na então Avenida Miguel Bombarda, junto do mercado municipal (onde, hoje, se situam as escolas primárias) e, aí começaram, também, em 1934, as obras do «esqueleto» para exercícios. O fardamento (23 fatos de macaco) e mais material (capacetes metálicos e cinturões, centenas de metros de mangueira, bomba braçal, etc.) foram adquiridos no decurso do ano de 1934.

 

O baptismo de fogo da nova corporação teve lugar, no dia 3 de Dezembro de 1934, ao cair da noite, na vila de Águeda. Segundo relato dos jornais, ocorrera um “pavoroso” incêndio num prédio pertencente a Joaquim Maria Canário, cujo rés-do-chão era ocupado por uma garagem e oficina de bicicletas, onde se guardavam alguns bidões de gasolina.

 

Foram chamadas várias corporações de Bombeiros, pelo telefone – Aveiro, Anadia, Sangalhos (que teve uma efémera Corporação), Albergaria-a-Velha, Oliveira de Azeméis, Coimbra e outras. Segundo os jornais da época, a Corporação de Anadia, por ser a de mais recente existência e de presumida inexperiência, foi das últimas a ser chamada, mas foi a segunda a chegar ao local e a montar o seu material, depois da de Aveiro. A de Sangalhos chegou para o rescaldo.

 

A Corporação de Aveiro “evidenciou-se pela sua perícia e actividade” e a de Anadia “pelo seu excelente material de incêndios, tendo os nossos bombeiros, apesar de novos, prestado muito bons resultados”.

 

A juntar ao pronto-socorro da Corporação, veio juntar-se uma outra viatura, em 10 de Março de 1935: um automóvel Benz, “com uma óptima instalação eléctrica e regularmente calçado”, oferecido por António Joaquim Rodrigues, de Amoreira da Gândara.

 

Em Maio de 1935, chegou a Anadia, o chassis de um «Ford V8». Esta nova viatura, depois de carroçada veio a constituir a terceira pertencente à Corporação.

 

A segunda missão de combate a incêndio, ocorreu no dia 8 de Agosto de 1935, nos armazéns das caldeiras do Grémio dos Vinicultores de Anadia. Aqui, os Bombeiros de Anadia actuaram sozinhos, apesar de terem comparecido outras Corporações, e a sua acção foi determinante para que o sinistro não atingisse maiores proporções.

 

Depois, seguiram-se alguns períodos de dificuldades: entre 1937 e 1939, o Corpo Activo atravessava dificuldades e treino, por falta de instrutor habilitado.

 

O primeiro Comandante foi José Rodrigues de Pinho, natural de Ovar, de cuja Corporação era, também, Comandante e desempenhava, na altura, as funções de Chefe da repartição de Finanças de Anadia. Este foi coadjuvado na instrução aos primeiros Bombeiros de Anadia por Bombeiros da Corporação de Coimbra que aqui se deslocavam, aos domingos.

 

Seguiram-se, no Comando dos Bombeiros de Anadia, José dos Santos Moura, a partir de 1935, nomeado Comandante em 15 de Janeiro de 1947, Manuel Tavares dos Santos, nomeado Comandante a partir de 11 de Abril de 1955 e, depois destes, Laurentino da Silva Costa (1972), Manuel Paredes da Costa (1987) e João José Dias Coimbra (1990-2007). Actualmente, exerce as funções de Comandante, Eduardo Gonçalves Matos Pereira.